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Privacidade de dados é uma estratégia de crescimento

Proteger os dados dos clientes é mais do que uma obrigação legal ou de TI. Pode ser um motor relevante de crescimento. Pesquisadores analisaram 360 anúncios reais de empresas sobre novas ou aprimoradas práticas de privacidade ao longo de 14 anos e constataram que o mercado recompensa consistentemente organizações que levam o tema a sério — especialmente aquelas que já sofreram violações de dados. Ao conectar práticas de privacidade ao comportamento do consumidor, usando dados da Osano e da YouGov, observaram que marcas com forte reputação em privacidade registraram um aumento de 12,31% na preferência dos clientes. Evidências experimentais explicam o motivo: práticas robustas elevam a confiança e reduzem preocupações, aumentando a intenção de compra. Para líderes, a mensagem é clara: tornar a privacidade visível, proativa e central na experiência do cliente, e não apenas um requisito de bastidores.

Por anos, empresas trataram a privacidade como uma necessidade defensiva, gerida por revisões jurídicas, checklists de compliance e políticas extensas. A lógica era que proteger dados gera custo, desacelera o crescimento e limita o uso de personalização e análise.

Pesquisas recentes desafiam essa visão. Estudos conduzidos por acadêmicos analisaram 280 marcas ao longo de quatro anos e demonstraram que práticas sólidas de privacidade estão diretamente associadas a maior intenção de compra. Marcas com políticas fortes apresentaram 12,31% mais intenção de compra do que aquelas com práticas fracas, com efeito ainda maior em marcas já bem avaliadas pelos consumidores.

Em experimentos, consumidores expostos a empresas com práticas fracas de privacidade mostraram baixa intenção de uso. À medida que as práticas melhoravam, a disposição para consumir também aumentava significativamente. Isso evidencia que tratar dados com responsabilidade não apenas protege a empresa, mas também atrai mais clientes e melhora o desempenho financeiro.

Outro achado relevante indica que empresas que adotam boas práticas de privacidade apresentam, em média, US$ 869 milhões a mais em valor para acionistas. Em contextos de maior risco, como incidentes de segurança, esse valor tende a ser ainda maior.

Os pesquisadores definem esse modelo como “gestão responsável da privacidade de dados”. Trata-se de cuidar dos dados dos clientes com visão de longo prazo, evitando exploração oportunista. Para isso, as práticas devem ser visíveis ao cliente, demonstrar responsabilidade real e estar integradas às operações, não sendo apenas simbólicas.

Esse modelo gera dois efeitos psicológicos importantes: a percepção de boa-fé — quando o cliente entende que a empresa realmente se importa com seus interesses — e a redução da preocupação com uso indevido de dados. Esses fatores aumentam a confiança, o engajamento e a fidelidade.

A principal conclusão é que privacidade não deve ser tratada como um custo ou obrigação, mas como um ativo estratégico. Empresas que adotam essa abordagem fortalecem a confiança, aprofundam o relacionamento com clientes e melhoram seus resultados.

Tornar-se uma organização orientada à privacidade não depende de ações pontuais, mas de consistência. É um processo contínuo que exige integrar proteção de dados à cultura, à operação e à proposta de valor da empresa:

Não espere que os clientes confiem imediatamente.

Empresas não podem simplesmente pedir confiança; precisam conquistá-la ao demonstrar, de forma consistente, comportamento responsável com os dados. Isso inclui coletar apenas o necessário, adotar medidas robustas de segurança e revisar e atualizar regularmente as políticas de privacidade.

Seja transparente e comunicativo.

Gestão responsável da privacidade não significa criar políticas mais longas ou encher a experiência com avisos. O objetivo é ser claro, direto e compreensível sobre como os dados são tratados.

Entenda que os clientes respondem à substância, não ao excesso de comunicação.

Uma boa gestão de privacidade envolve governança clara de dados, algum nível de controle para o cliente e coerência entre discurso e prática. Isso exige coordenação entre marketing, produto, jurídico e tecnologia. As empresas não devem esperar por regulamentações ou problemas para agir; precisam proteger os dados de forma proativa e comunicar isso continuamente.

Incorpore a privacidade em tudo o que faz.

Mostre que a empresa se preocupa com o interesse do cliente, não apenas com lucro. A privacidade deve ser percebida como parte do produto, e não um complemento. Adaptar a comunicação também é essencial: marcas já confiáveis devem reforçar seus atributos positivos, enquanto marcas menos confiáveis ou em ambientes de risco devem focar em reduzir preocupações e explicar suas proteções. Não existe abordagem única — a estratégia deve refletir como os clientes já percebem a empresa e os riscos associados a ela.

À medida que os dados ganham mais importância nas operações, as pessoas passam a observar com mais atenção como as empresas protegem sua privacidade. Organizações que não demonstram confiabilidade correm o risco de perder clientes e receita para concorrentes.


Entrevista

A confiança é construída por repetição, não por uma única mensagem

Keith Enright é sócio do escritório global de advocacia Gibson Dunn, com presença em 10 países, e ex-diretor de privacidade do Google. Ele conversou com a Harvard Business Review sobre como a gestão responsável da privacidade funciona na prática dentro das empresas modernas e como líderes devem pensar sobre conformidade, confiança e inovação. A seguir, trechos editados da entrevista.

Na sua experiência, práticas sólidas de privacidade geram melhores resultados de negócios?

Sem dúvida. Quando você explica claramente suas práticas de privacidade e as segue de forma consistente, os clientes passam a confiar mais ao longo do tempo. Mas há também implicações práticas importantes. Boas práticas de privacidade facilitam o lançamento de novos recursos e produtos, além de reduzir atritos com reguladores. A conformidade se torna cara quando é incorporada tarde no desenvolvimento, pois exige retrabalho, atrasos ou até abandono de ideias que violam regras. Muitas empresas acumulam uma espécie de “dívida de compliance” ao cortar caminhos para acelerar entregas — e isso acaba prejudicando lançamentos futuros, aumentando riscos legais e dificultando auditorias e aquisições.

Como você ajuda clientes a melhorar a gestão de privacidade?

Auxilio empresas a navegar ambientes regulatórios complexos, ajudando-as a avaliar quanto risco podem assumir de forma responsável sem comprometer a agilidade. Quando algo dá errado, atuo diretamente com reguladores, gerencio investigações e uso esses momentos para ajudar as empresas a realinharem cultura e processos em torno de confiança e uso responsável de dados. Meu trabalho envolve múltiplas áreas — jurídico, engenharia, produto e marketing — garantindo que decisões de privacidade estejam alinhadas tanto com conformidade quanto com objetivos de negócio.

Como comunicar ao público uma gestão responsável de dados?

A melhor forma é tornar a comunicação clara, concreta e visível nos pontos onde os clientes tomam decisões. Comece explicando, em linguagem simples, quais dados são coletados, por quê e como são protegidos, evitando jargões técnicos ou jurídicos. Demonstre na prática, com ações reais: políticas acessíveis, especialistas qualificados, controles significativos para usuários e transparência na correção de erros. Conte histórias, não apenas slogans. Mostre como decisões de privacidade protegem usuários e reduzem riscos. E, principalmente, mantenha consistência ao longo do tempo — confiança se constrói pela repetição.

Quais erros comuns as empresas cometem?

Muitas acreditam que estão fazendo um bom trabalho apenas porque ainda não houve problemas. Tornam-se complacentes e usam termos como “segurança total” ou “privacidade completa”, sem conseguir sustentar essas promessas. Problemas surgem quando especialistas em privacidade são envolvidos apenas no final, gerando retrabalho, atrasos e mudanças públicas que prejudicam a confiança. A comunicação interna também falha: marketing promete demais, enquanto o jurídico é visto como obstáculo. Com o tempo, isso pode levar a violações de dados ou investigações regulatórias. Falhas raramente são causadas por um único erro grande — geralmente resultam de pequenos erros acumulados.

O que acontece quando ocorre uma violação de dados?

Ao longo da minha carreira, acompanhei diversos casos de incidentes que geraram investigações nacionais e até centenas de investigações simultâneas. A principal lição é: não desperdice a crise. Use o momento para corrigir problemas estruturais e culturais, não apenas o incidente imediato. Traga especialistas capazes de identificar falhas e trabalhe de forma construtiva com reguladores. Também é essencial alinhar promessas com a capacidade real de entrega, pois a confiança cai rapidamente após uma violação e leva tempo para ser reconstruída. O objetivo não é apenas minimizar o dano, mas sair da crise mais forte e alinhado.


Fonte:

Uma versão deste artigo foi publicada na edição de maio-junho de 2026 do periódico Harvard Business Review. Traduzido pelo ChatGPT 5.