Capítulo 06 – Primeiros quilômetros na estrada da selva amazônica

Esse é o capítulo 06 de 20 do livro Amazônia: A Viagem Quase Impossível

O livro é um relato verdadeiro sobre a a incrível expedição de uma ciclista que decide atravessar a Rodovia Transamazônica sozinha, sendo a primeira pessoa no mundo a fazer isso em 1978. Entre selva, rios imensos e comunidades isoladas, ela enfrenta perigos, desafios físicos e culturais em uma jornada de coragem, descoberta e superação no coração da Amazônia.


Depois de me despedir de Debra e dos Hawkins, embarquei no pequeno barco fluvial no fim da tarde. Ele partiu às sete horas e estava programado para chegar a Itaituba às três horas da tarde do dia seguinte. Uma viagem de barco tranquila e agradável, com refeições incluídas.

Observando a selva em ambas as margens do rio, não consegui deixar de me preocupar com a próxima etapa da viagem — os “impossíveis” mil e cem quilômetros que começariam em Itaituba. Eu já não acreditava que fosse totalmente desabitado… já havia pedalado por trechos onde me avisaram que não haveria ninguém para me ajudar se eu tivesse problemas e, comparativamente, encontrei uma população até bastante densa. Mesmo assim, eu não poderia mais contar com uma fazenda a cada meio quilômetro ou uma agrovila a cada cinquenta.

O que William tinha dito mesmo? “Não acampe à noite. É quando os animais selvagens mais perigosos saem para caçar.”

O que eu faria se ficasse presa no meio da selva à noite?

A solidão não me preocupava. Eu nunca me sentia sozinha enquanto pedalava. Eu tinha minha bicicleta para conversar. Era à noite, ou em uma cidade estranha onde eu não conhecia ninguém, que eu realmente me sentia sozinha.

Decidi que estava sendo mórbida. Afinal, eu tinha um endereço para ir em Itaituba; me preocuparia com o resto da viagem quando chegasse lá. Tirei meu pequeno guia de frases português-inglês do alforje e me acomodei para aprender um pouco mais da língua.

O barco chegou a Itaituba exatamente no horário. Desembarquei minha bicicleta e perguntei o caminho da igreja presbiteriana. Eu tinha mensagens para o pastor dali vindas de James Hawkins. Mas tanto a igreja quanto a casa ao lado pareciam fechadas e vazias. Os vizinhos me disseram que o pastor e sua esposa tinham saído alguns dias antes. Ninguém sabia quando voltariam.

“Talvez a senhora Moreland saiba.”

Os Moreland eram missionários americanos do outro lado da cidade, e dois rapazes jovens em bicicletas se ofereceram para pedalar comigo até lá e mostrar o caminho. Com esse tipo de gentileza, com o que exatamente eu estava me preocupando?

Jim e Mary Moreland eram maravilhosos. Estavam no meio da construção da própria casa. Ainda não estava terminada, mas isso não os impediu de se mudar para lá. As paredes estavam erguidas e o telhado já estava colocado.

“Cansamos de viver em uma barraca”, disse Mary.

Eles tinham três filhas e um filho em casa com eles, de férias da escola nos Estados Unidos, e também um rapaz alto, ruivo, chamado Gerry, um escocês que estava viajando de carona pelo Brasil e que eles haviam encontrado a caminho de Brasília.

Eles tornavam morar em uma casa inacabada uma enorme diversão. Eu subia e descia por uma única tábua para chegar ao andar de cima onde as meninas dormiam. A escada ainda não havia sido construída. Precisávamos assobiar ou cantar enquanto tomávamos banho — ainda não havia porta.

Crianças da região entravam e saíam o dia inteiro, em parte para olhar os estrangeiros, em parte para ver se conseguiam ganhar um biscoito. Elas estavam fascinadas por Naomi, a filha mais velha, e ficavam horas observando enquanto ela pintava o piso de concreto da sala.

De manhã Jim levou Gerry e eu para a cidade. Eu queria ver o representante do DNER para perguntar sobre a estrada à frente. Gerry estava investigando a possibilidade de visitar uma mina de ouro. Não tínhamos ido muito longe quando Jim encontrou um homem que ele conhecia e que levava suprimentos para as diferentes comunidades de mineração. Logo estavam os dois profundamente concentrados organizando uma viagem para Gerry.

De repente me ocorreu que talvez eu pudesse ir também. Sugeri que Jim perguntasse ao homem se isso seria possível.

Oh sim, perfeitamente possível. Mas poderia ser um pouco difícil.

Fiquei bastante animada com a perspectiva e cheia de perguntas. Haveria algum lugar para dormir? Sim, mas precisaríamos levar nossas redes. Precisaríamos levar comida? Não. Jim traduziu dizendo que lá havia fartura de tudo. Precisaríamos levar água potável ou algo assim para a viagem? Eu estava pensando na pequena viagem de jipe desde a fazenda de William. Não, não, bastava pegarmos nossos pertences pessoais. Chico, o motorista, sairia em menos de uma hora e primeiro precisaríamos atravessar o rio até onde estava o caminhão dele. Se não estivéssemos lá dentro de uma hora ele partiria sem nós.

Eu já havia visitado uma mina de prata no Peru e imaginei que a mina de ouro no Brasil seria mais ou menos a mesma coisa. A mina peruana consistia em um conjunto de várias centenas de casas de mineiros, um grande alojamento para os funcionários da mina com quartos separados e sala de jantar. Um grande clube comunitário tinha bar, salas para jogar cartas, tênis de mesa e assim por diante. Havia até um cinema.

Peguei minha câmera, a rede, uma escova de dentes e alguns cruzeiros. Não deveria precisar de muito dinheiro. Chico nos levaria e traria de volta de graça e disse que poderíamos comer sem pagar no refeitório. Afinal, ficava a apenas uns quarenta quilômetros dali.

Atravessamos o rio de barco a motor e chegamos ao caminhão de Chico com cinco minutos de sobra.

Sentei na frente. Gerry pulou para a parte de trás com nossos embrulhos de pertences, junto com várias outras pessoas que também iam para a mina. Viajamos por algum tempo pela Transamazônica e depois viramos para o sul, entrando na selva pela estrada de Cuiabá.

Chico fumava e conversava alegremente com o amigo. Eu estava sentada entre os dois.

A estrada era isolada. Vi apenas algumas fazendas, mas depois de duas horas chegamos a um bar-restaurante e todos desceram para almoçar. O motor ficou ligado.

Fiquei conversando com Gerry ao lado do caminhão. Chico colocou a cabeça para fora do restaurante.

“É melhor vocês comerem alguma coisa, não haverá outra oportunidade até chegarmos a São Jorge.”

“É longe?”, perguntei.

“Não chegaremos antes das oito da noite”, respondeu Chico.

“Fica a mais de quatrocentos quilômetros de Itaituba.”

Quatrocentos! Nós nos olhamos e corremos para dentro do restaurante para pedir comida.

Chico usava um revólver em um coldre no cinto e carregava uma poderosa espingarda na cabine conosco. Durante o almoço ele se divertiu muito mostrando as armas e contando longas histórias sobre o excelente atirador que era.

Quando soube a distância, relaxei e passei a aproveitar a viagem.

A estrada ficou mais selvagem. De vez em quando Chico freava de repente, mandava todos ficarem em silêncio e então avançava pela estrada ou pela selva com a espingarda. Duas vezes ele atirou, mas não acertou nada. Depois contava aos passageiros uma longa e complicada história explicando por que tinha errado.

Ele falava muito, ria muito e ocasionalmente explodia em acessos de irritação que desapareciam tão rápido quanto surgiam.

Embora poucas pessoas vivessem ao longo da estrada, parecia conhecer todas. Se passávamos por uma cabana ou fazenda, ele buzinava e gritava uma saudação. Às vezes parávamos e ele entrava direto em uma cabana, se jogava em uma rede, conversando alto e pedindo café.

Todos o conheciam e pareciam gostar de sua visita espontânea. Certamente ele os mantinha atualizados com as fofocas locais.

Em uma fazenda paramos por vinte minutos para nos juntar a um grupo de convidados de um casamento. A noiva parecia completamente fora de lugar na selva, vestida com um longo vestido de noiva branco de estilo ocidental e véu.

O crepúsculo chegou e logo desapareceu também, e viajamos através da escuridão total, iluminados apenas pelos faróis fracos que tremiam irregularmente enquanto saltávamos sobre o caminho irregular. Às vezes havia um brilho verde quando as luzes captavam por um instante os olhos de algum animal na estrada à frente.

Já eram quase nove horas quando chegamos à estrada que levava à mina. O caminho era ainda mais áspero, se é que isso era possível, e nada menos que um land rover poderia ter sobrevivido ali.

Descemos do caminhão com os corpos doloridos e rígidos.

Algumas lamparinas tremeluzentes delineavam vagamente várias cabanas de barro. Não havia qualquer prédio de empresa em lugar algum.

“Pergunto-me o que acontece agora”, disse Gerry.

Logo descobrimos.

Chico exigiu 250 cruzeiros de cada um de nós como pagamento pela viagem. Nós não tínhamos 250 cruzeiros conosco. Gerry explicou que tinha entendido que a viagem era gratuita e que todo o nosso dinheiro estava em Itaituba.

Chico ficou furioso.

“Resolveremos isso depois. Vou continuar para outra mina esta noite.”

Ele voltaria dirigindo para Itaituba em dois dias. Deveríamos caminhar oito quilômetros de volta até a estrada principal e estar na encruzilhada ao meio-dia de sexta-feira ou ele seguiria viagem e nos deixaria para trás.

Ele virou o caminhão com raiva e, com o rangido das engrenagens, desapareceu saltando na escuridão.

Olhamos ao redor. Em que nos metemos?

Seguimos um dos nossos companheiros de viagem até um restaurante. Tudo o que tinham eram ovos cozidos duros, a cinco cruzeiros cada.

Pedimos café e avaliamos a situação. A essa altura todos no povoado já sabiam de nossa situação e vieram ao restaurante para discutir e nos observar.

Isso obviamente era bom para os negócios e o gerente do restaurante de repente nos ofereceu o uso de uma pequena cabana ao lado para passar a noite. Agradecemos muito.

A cabana tinha telhado de capim e paredes de varas soltas. Entramos e fechamos a porta. A lamparina que ele nos deu fornecia luz suficiente para mostrar que havia espaço apenas suficiente para pendurar nossas redes nas duas vigas que sustentavam o telhado.

Em algum lugar do outro lado um gramofone tocava. Um disco apenas, repetidamente. Havia risadas, gritos e assobios. Vozes se elevavam em canção e depois, de repente, em raiva.

Sentamos bruscamente quando meia dúzia de tiros soaram. A música foi aumentada ainda mais e os gritos ficaram mais altos.

Na manhã seguinte nos disseram que dois homens tinham sido feridos e levados de caminhão para Itaituba.

Sair da cabana foi como voltar no tempo. Poderíamos estar em Klondike durante a corrida do ouro, ou em Ballarat, na Austrália, ou em Central Otago, na Nova Zelândia.

A única rua era ladeada por barracos de madeira. Dois deles eram saloons. Um deles ainda tocava o mesmo disco que tínhamos ouvido na noite anterior.

Havia várias lojas gerais, dois cafés, uma padaria — fechada — e um posto médico. Também fechado. O médico que o administrava havia sido baleado algumas semanas antes e agora era paciente no hospital de Itaituba.

A população consistia de 1.500 mineiros e 15 mulheres. Destas, dez eram esposas de mineiros e cinco eram “hostesses” — não muitas para satisfazer 1.490 homens.

Não havia escritório de advocacia nem igreja. Talvez fosse assim que Novo Brasil era antes de “esposas e religião” serem enviadas para lá.

Depois do café da manhã caminhamos pela trilha além do povoado para observar os mineiros trabalhando. A trilha estava quieta e vazia. Depois de cerca de dois quilômetros descia para um vale e atravessava o rio. Ali havia mineiros trabalhando.

Um velho que fervia água em uma lata parecia feliz com a oportunidade de conversar, e Gerry falava português bastante bem. Gerry perguntou sobre a mina de São Jorge e o homem nos contou uma história.

O ouro foi descoberto ali pela primeira vez menos de três anos antes, quando estavam construindo a estrada Santarém-Cuiabá. Um dos trabalhadores que cavava com uma picareta ajudando a abrir literalmente uma estrada inteira através da selva virgem começou a pensar no que estava fazendo. Por que não cavar para si mesmo? Poderia morrer de fome, poderia ser morto por índios hostis ou poderia encontrar ouro. Valia a pena o risco.

Então ele abandonou o trabalho na estrada, colocou a picareta debaixo do braço e entrou na floresta.

E encontrou ouro. Muito ouro.

Pegando carona em um caminhão de obras da estrada ele chegou a Cuiabá para registrar sua reivindicação. A notícia se espalhou como fogo e um grande consórcio decidiu investigar. Descobriram que a área era extremamente rica e ofereceram comprar a concessão do pequeno trabalhador da estrada. Pagaram a ele trinta milhões de dólares — o homem que contava a história enfatizou a palavra dólares.

Em dois anos aquele pequeno trabalhador havia gasto tudo.

Nem Gerry nem eu acreditamos em uma palavra da história. Mas gostávamos de pensar que talvez pudesse ser verdade.


Esse foi o capítulo 06 de 20 do livro

Avançar para Capítulo 07
Estradas de terra, calor e poeira na Amazônia


Navegue por todos os capítulos do livro:

Capítulo 01 – A ideia de atravessar a Amazônia de bicicleta

Capítulo 02 – Preparativos para a viagem pela Rodovia Transamazônica

Capítulo 03 – Chegada ao Brasil e os primeiros desafios da expedição

Capítulo 04 – Belém do Pará: ponto de partida para a travessia da Amazônia

Capítulo 05 – Planejando a jornada pela Transamazônica

Capítulo 06 – Primeiros quilômetros na estrada da selva amazônica

Capítulo 07 – Estradas de terra, calor e poeira na Amazônia

Capítulo 08 – Pedalando sozinho pela imensidão da floresta

Capítulo 09 – Povos indígenas e comunidades da Amazônia

Capítulo 10 – Tempestades tropicais e dificuldades da estrada

Capítulo 11 – Sobrevivendo na selva amazônica durante a viagem

Capítulo 12 – Longas distâncias e isolamento na Transamazônica

Capítulo 13 – Ajuda inesperada no coração da Amazônia

Capítulo 14 – Perigos da floresta e desafios da expedição

Capítulo 15 – Pequenas comunidades ao longo da Transamazônica

Capítulo 16 – Grandes rios e travessias na Amazônia

Capítulo 17 – Resistência física e mental na viagem de bicicleta

Capítulo 18 – Superando obstáculos na travessia da Amazônia

Capítulo 19 – Aproximando-se do final da jornada impossível

Capítulo 20 – A travessia da Amazônia que parecia impossível


Capítulos traduzidos pelo ChatGPT 5