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Enshittification – A piora proposital de serviços e Apps

Por que todos os aplicativos e serviços digitais estão ficando piores de propósito?

Você já reparou que pedir um lanche por aplicativo hoje custa quase o dobro do preço do restaurante? Ou que a sua Smart TV moderna exibe mais comerciais do que a TV a cabo exibia nos anos 1990? Se você tem a sensação constante de que a internet está ficando cada vez mais irritante, difícil de usar e cara, saiba que você não está maluco. Você é a vítima de uma transformação econômica bem documentada no mercado de tecnologia.

Migramos silenciosamente de uma economia de experiência do usuário — onde as empresas competiam para nos encantar — para uma economia de extração do usuário, em que a meta principal é criar atritos suficientes para que você pague para fazê-los parar. Essa deterioração estratégica que afeta desde o Instagram e o Amazon até os aplicativos de relacionamento atende por um nome técnico surpreendente: Enshittification (que pode ser traduzido livremente como “merdificação” ou “deterioração digital”).

Cunhado pelo escritor e ativista Cory Doctorow, esse conceito ajuda a explicar como produtos brilhantes se transformam em shoppings virtuais decadentes. Neste artigo, você entenderá em detalhes como funciona esse ciclo corporativo, por que ele afeta a sua vida diária e o que podemos fazer para retomar o controle do mundo digital.

O Subsídio do Estilo de Vida e a Falsa Ilusão da Inovação

Para compreender onde o apodrecimento das plataformas começou, precisamos voltar no tempo até meados de 2014. Se você tinha um smartphone naquela época, certamente se lembra de como a vida digital parecia incrivelmente barata e conveniente.

Era possível atravessar a cidade de carro por uma fração do preço de um táxi comum, pedir produtos com frete grátis para entrega no dia seguinte ou assistir a catálogos gigantescos de filmes e séries por um valor simbólico, sem comercial algum. Naquele período, fomos levados a acreditar que tudo aquilo era fruto puramente da eficiência tecnológica e da inovação. No entanto, a realidade era outra: estávamos vivendo sob o chamado subsídio do estilo de vida.

Empresas de capital de risco (venture capital) injetaram bilhões de dólares para bancar esses descontos. O objetivo dessas plataformas não era ser generosas, mas sim praticar o preço predatório para destruir a concorrência tradicional:

  • O Uber operava no prejuízo para que você parasse de andar de ônibus ou chamar táxis.

  • A Amazon vendia produtos abaixo do custo até que lojas físicas e concorrentes falissem.

  • Os serviços de streaming ofereciam preços irrisórios até você cancelar a sua assinatura de TV por assinatura.

Uma vez que a concorrência foi eliminada, os usuários apagaram as alternativas do celular e ficaram totalmente presos ao ecossistema, o financiamento bilionário chegou ao fim. Os investidores de risco exigiram o retorno de seus investimentos, marcando o início da derrocada.

As 3 Etapas do Apodrecimento Digital (Enshittification)

O processo de degradação de uma plataforma digital não acontece por acaso. Trata-se de uma estratégia corporativa dividida em três fases bem definidas, que transformam um serviço incrível em uma armadilha rentável.

Etapa 1: Ser Incrivelmente Bom para os Usuários

Na fase inicial, a prioridade absoluta é criar uma base gigantesca de usuários ativos. A plataforma oferece recursos excelentes, navegação limpa, suporte ágil e custos subsidiados. Todo o design é pensado para encantar e gerar dependência, garantindo que o serviço se torne indispensável no dia a dia do consumidor.

Etapa 2: Abusar dos Usuários para Agradar os Clientes Pagantes

Assim que a base de usuários está aprisionada, a empresa muda o foco para quem realmente paga as contas: os anunciantes e os vendedores parceiros. A experiência do usuário começa a ser sacrificada em prol da rentabilidade.

A Amazon, por exemplo, transformou as primeiras telas de resultados de busca em um campo minado de anúncios pagos. Ao pesquisar por um tênis de corrida, você não vê os produtos mais bem avaliados ou os mais baratos, mas sim aqueles cujas marcas pagaram as maiores comissões.

No Instagram, o feed de fotos de amigos foi gradualmente substituído por vídeos de desconhecidos e anúncios patrocinados. O objetivo de Mark Zuckerberg ao fazer isso não foi acidental: vídeos de estranhos mantêm o usuário rolamento a tela por mais tempo, gerando mais espaço para veiculação de publicidade.

Etapa 3: Abusar de Todo Mundo para Extrair Todo o Valor Restante

Na etapa final, a plataforma para de se importar até mesmo com a qualidade do seu produto principal. Ela passa a prejudicar tanto os usuários quanto os próprios anunciantes e fornecedores para sugar cada centavo de lucro possível.

Nesta fase, a plataforma atinge o nível máximo de degradação, gerando o que podemos chamar de fricção lucrativa: o serviço se torna intencionalmente pior para forçar as pessoas a pagarem por soluções.

Casos Reais de Enshittification no Nosso Dia a Dia

Para visualizar o impacto prático dessa deterioração no cotidiano, basta observar o comportamento de gigantes da tecnologia que usamos diariamente.

1. O Google e a Era do “Lixo de IA” (AI Slop)

Durante décadas, o Google atuou como o grande bibliotecário da web. Quando você fazia uma pergunta, recebia respostas humanas e precisas nas primeiras posições. Recentemente, estudos de universidades europeias confirmaram o que a maioria dos usuários já percebia: a qualidade da busca do Google piorou drasticamente.

Hoje, os primeiros resultados são dominados por fazendas de conteúdo automatizadas por inteligência artificial, projetadas unicamente para manipular os algoritmos do buscador. O Google permite que isso aconteça porque quanto mais links irrelevantes você clica e quanto mais anúncios visualiza antes de encontrar a resposta, mais receita a empresa gera. A confusão do usuário virou modelo de negócio.

2. Apps de Relacionamento e a Gameficação da Solidão

O slogan famoso do aplicativo Hinge é “feito para ser apagado”. No entanto, a lógica econômica dos apps de namoro aponta exatamente na direção oposta. Em 2024, uma ação coletiva movida nos Estados Unidos acusou o grupo Match Group (dono do Tinder e do Hinge) de utilizar técnicas psicológicas predatórias para viciar os usuários.

Se o aplicativo funcionar perfeitamente e você encontrar um parceiro de forma rápida e definitiva, a empresa perde um cliente pagante. Por isso, esses serviços funcionam quase como máquinas caça-níqueis: escondem os melhores perfis atrás de paywalls, distribuem curtidas aos poucos para liberar dopamina no cérebro e mantêm o usuário deslizando a tela infinitamente sem nunca sair do aplicativo.

Setor Promessa Inicial Realidade Atual da Enshittification
Busca (Google) Organizar a informação do mundo com rapidez Exibir anúncios e artigos caça-cliques gerados por IA
E-commerce (Amazon) Encontrar os melhores produtos pelo menor preço Priorizar quem paga mais taxa de publicidade no site
Relacionamento (Tinder/Hinge) Ajudar as pessoas a encontrarem o amor Monetizar a solidão com recursos pagos e algoritmos viciantes
Streaming (Netflix/Disney+) Substituir a TV a cabo com preço baixo e sem ads Preços elevados, bloqueio de senhas e inserção de comerciais

 

O “Aprisionamento Tecnológico” e a Impossibilidade de Fuga

Em um mercado verdadeiramente livre e competitivo, quando um produto se torna ruim e caro, os consumidores simplesmente migram para um concorrente. No entanto, as grandes empresas de tecnologia anteciparam esse movimento e criaram o chamado lock-in (aprisionamento do cliente).

A Apple exemplifica essa estratégia ao manter o ecossistema do iMessage restrito e degradar propositalmente a experiência de troca de mensagens com aparelhos Android. A fotos ficam borradas e as confirmações de leitura somem não por limitação técnica, mas para criar uma pressão social para que as pessoas adquiram iPhones.

Nos serviços de transporte e entrega, os usuários não conseguem abandonar os aplicativos porque o transporte público de muitas cidades foi sucateado e o comércio local fechou as portas. No streaming, o consumidor se vê obrigado a assinar múltiplos serviços caros — que hoje reproduzem exatamente o modelo da antiga TV a cabo — para conseguir assistir às suas produções favoritas.

Como Quebrar o Ciclo da Deterioração Digital?

Apesar de parecer um cenário desolador, o fenômeno da Enshittification traz uma lição histórica importante: a degradação acelerada de um serviço costuma ser o último estágio de uma empresa que perdeu a capacidade de inovar e passou a saquear seus próprios usuários antes de ruir. Foi exatamente isso o que aconteceu no passado com gigantes que pareciam invencíveis, como o AOL, o Yahoo e o MySpace.

Para acelerar o fim desse ciclo e recuperar a qualidade da internet, existem três caminhos fundamentais:

  • Interoperabilidade: Trata-se do direito do usuário de migrar de plataforma sem perder os seus dados ou a sua rede de contatos. Imagine poder cancelar sua conta em uma rede social e migrar para outra, mas continuar enviando mensagens para os amigos que ficaram lá. A interoperabilidade quebra o aprisionamento tecnológico.

  • Regulamentação Antitruste: A pressão governamental é indispensável. Já vemos movimentos importantes, como a União Europeia forçando a Apple a adotar conectores universais e os processos antitruste promovidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra o monopólio de buscas do Google e o domínio da Amazon.

  • Ação Consciente do Consumidor: Precisamos parar de aceitar serviços de baixa qualidade por comodismo. Sempre que possível, utilize e apoie alternativas de código aberto e focadas em privacidade, como navegar usando o Mozilla Firefox, utilizar o Signal para mensagens e buscar informações por meio de ferramentas independentes.

Conclusão: O Futuro da Nossa Vida Digital

A internet foi concebida originalmente como uma ferramenta descentralizada para conectar pessoas, compartilhar conhecimento e expandir as possibilidades humanas. O processo de Enshittification tentou transformar esse espaço livre em uma combinação de shopping center com cassino virtual, onde o usuário deixa de ser o cliente para se tornar o produto a ser espremido.

A boa notícia é que nenhuma empresa é grande demais para cair quando a sua base de clientes decide que canso de ser tratada com desrespeito. Ao entender como esse ciclo funciona, você ganha o poder de fazer escolhas de consumo mais inteligentes, exigir seus direitos e apoiar um ecossistema digital mais saudável.